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“Half Man”: entre a bisseção e o absoluto

Foto do escritor: Neomarsha UFC
Neomarsha UFC
4 de jun.
3 min de leitura
Half Man dispensa a redenção e prova que, na tentativa de performar uma masculinidade inalcançável, o maior inimigo que um homem gay pode enfrentar é a sua própria sombra.

Por João Alves


Com seu último episódio exibido ao final de maio pela HBO Max, Half Man (Pela Metade) entrega uma experiência que é, simultaneamente, uma repetição de ciclos destrutivos já vistos na televisão e uma novidade visceral e arriscada. A minissérie de seis episódios marca o retorno de Richard Gadd — criador do aclamado Bebê Rena — e percorre trinta anos da relação entre Ruben (vivido pelo próprio Gadd) e Niall (Jamie Bell).


Assim como em sua obra anterior, Gadd não está interessado em finais felizes ou redenções fáceis; ele constrói uma narrativa onde a vulnerabilidade cede lugar ao distanciamento, punindo o espectador ao mostrar como a validação e a aprovação masculina podem ser letais.


Criados juntos na Escócia dos anos 1980 por mães que viviam um relacionamento lésbico, os irmãos de criação são o completo oposto um do outro. Niall é o adolescente branco, educado e "certinho", enquanto Ruben é o rebelde recém-liberto de uma instituição para jovens infratores. Ao passarem a dividir a mesma casa, escola e quarto, a pressão se torna o alimento da alma dos dois. Ruben, encarnando o machão de sotaque inglês, logo batiza Niall de “bambi”, inaugurando uma dinâmica de fascínio e repulsa.


É nessa convivência forçada que Niall sente, pela primeira vez, que aquele que o assombra é, paradoxalmente, a peça que lhe falta para ser um “homem completo”.


Ao longo das décadas, o que acompanhamos é uma reação em cadeia de explosões, brigas e remorsos. A série dramatiza o que a psicanálise chama de compulsão à repetição: os irmãos erram, se afastam, retornam e reincidem em um padrão de violência extrema porque não sabem existir de outra forma. Niall foge para a universidade, vive romances escondidos — como o flerte inicial com Alby (Bilal Hasnan/Charlie De Melo) —, mas acaba sempre firmando um "contrato com o diabo" ao trazer Ruben de volta para sua vida.


O centro nervoso de Half Man não está apenas na violência física — que culmina em Ruben pisoteando o rosto de um homem na sala da universidade e voltando ao sistema prisional —, mas na violência psicológica da negação. Anos se passam e Niall se torna seu próprio pior inimigo. À beira da falência por investir dinheiro para “aprender a ser hétero”, ele mantém encontros sexuais furtivos em bibliotecas, recusa-se a admitir sua sexualidade para a mãe e passa a vida performando uma virilidade oca.


A trama atinge seu ápice de crueldade quando os limites da fraternidade são completamente estilhaçados. Ruben, que é infértil, desenvolve um ciúme doentio da própria esposa e manda Niall vigiá-la para quitar uma dívida financeira. O resultado é uma tragédia irônica e brutal: Niall, o irmão que desesperadamente tenta provar sua masculinidade e heterossexualidade, acaba engravidando a cunhada.


O grande clímax emocional não ocorre em uma cena de agressão física, mas através de um vidro de presídio. Após anos de idas e vindas, e de ressentimentos acumulados, Niall finalmente resolve se assumir gay para o irmão. A resposta de Ruben é de uma indiferença desconcertante: “Não sinto nada. Por que eu ligaria? Temos mães sapatões. Esse problema é seu [...]. Sabe quem era o homofóbico na sua vida? Vou te contar: você”. E quando Niall, confuso, pergunta se ele não está bravo, Ruben finaliza: “Não. Estou orgulhoso”.


A trégua dura apenas os segundos necessários para Niall, entre risos e lágrimas, construir a ruína final de ambos, revelando ser o verdadeiro pai do filho que Ruben acreditava ser seu. O desfecho, que mistura flashforwards do dia do casamento de Niall com Alby e a imagem perturbadora de um corpo em um saco preto saindo de um celeiro, mantém o mistério sobre quem realmente sobreviveu àquela irmandade.


Mas a ambiguidade do final de Half Man parece menos interessada em revelar quem morreu fisicamente e mais focada no fracasso existencial de ambos. O enredo tem conexões diretas com a vida fora da dramaturgia: quantos homens estão por aí tentando performar masculinidade para provar um ponto que só existe na cabeça daqueles que buscam desesperadamente ser “passáveis”? Incontáveis "Nialls" caminham pelo mundo negando quem são e rejeitando sua própria comunidade para tentar caber em um molde aceitável.


Existe uma bissecção trágica dentro da comunidade LGBTQIAPN+, um absolutismo cruel que a série escancara: muitas vezes, antes de enfrentarmos os inimigos do mundo exterior, descobrimos que o nosso primeiro e mais letal algoz é aquele com quem dividimos a nossa própria sombra.


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