“Três Graças” e a construção de personagens LGBTQIAPN+ na TV abertapor Fernanda Duarte
A trajetória de Viviane e do casal "Loquinha" reafirma a importância de contar histórias de amor e resistência que vão muito além da identidade de gênero no horário nobre.
Por Fernanda Duarte
Em 1974, as personagens Glorinha e Roberta, da telenovela “O Rebu”, revolucionaram a TV Globo ao serem o primeiro casal sáfico da teledramaturgia brasileira. Já a primeira personagem trans veio em 1989, na produção “Tieta”, com a figura de Ninete. Desde então, a emissora carioca vem introduzindo personagens LGBTQIAPN+ em suas tramas, e “Três Graças”, última novela das nove, ganhou destaque pela maneira como abordou a representatividade.
A produção, que teve seu último capítulo no dia 15 de maio de 2026, acompanha Gerluce Maria das Graças (Sophie Charlotte), uma cuidadora que lida com desafios familiares comuns para muitas mulheres brasileiras: é mãe solo, não teve um pai presente, trabalha para sustentar a casa e tem que lidar com a gravidez precoce da filha. Na narrativa, três personagens ganharam o interesse do público: Viviane Fonseca (Gabriela Loran), Lorena Ferette (Alanis Guillen) e Eduarda Fragoso (Gabriela Medvedovsky), apelidada de Juquinha.
Viviane é uma farmacêutica, melhor amiga da protagonista e uma mulher trans, assim como a atriz que a interpreta. A personagem é marcante por ser uma representação fiel e não caricata da vivência de muitas mulheres trans. Viviane não é reduzida apenas à sua identidade de gênero: tem uma carreira bem-sucedida, amizades fortes e pessoas que a apoiam incondicionalmente.
Quando a novela toca no assunto do gênero da personagem, o faz reproduzindo situações reais, mas com um quê de conscientização. Ao descobrir que Viviane é uma mulher trans, Leonardo (Pedro Novaes), namorado da farmacêutica, inicialmente tem uma reação negativa. Por ter sido criado por um pai homofóbico e altamente conservador, o jovem começa a questionar o relacionamento, sua masculinidade e sua sexualidade.
Porém, consegue reconhecer seus erros, superar seus preconceitos e, então, ter um final feliz com a namorada.
O enredo da personagem ainda conta com sucessivos embates com o sogro, Santiago Ferette (Murilo Benício), que profere diversas falas transfóbicas contra a mulher. Mesmo assim, Viviane não se deixa abalar pelo ódio destilado pelo vilão da novela. A personagem é segura de si, autoconfiante e não cai no estereótipo de “sofredor” aplicado a muitos personagens queer.
Já Lorena — irmã de Leonardo e filha de Santiago Ferette — surge como um embate aos pensamentos preconceituosos do pai. A jovem é uma feminista assumida, uma ativista e está sempre em conflito com o vilão por defender o que acredita. No decorrer da novela, ela se apaixona pela policial Eduarda, mais conhecida como Juquinha, e as duas engatam um belo romance.
O casal se tornou tão querido pelos espectadores que as personagens ganharam uma novelinha virtual: “Loquinha”, título que junta os nomes das duas jovens.
Na trama, Lorena passa por uma situação ainda comum para pessoas LGBTQIAPN+: é expulsa de casa pelo pai ao assumir seu relacionamento com uma mulher.
Mesmo com as dificuldades, a garota ainda encontra apoio em sua mãe e seu irmão, que em nenhum momento questionam a sexualidade ou o namoro da jovem. Juquinha, por sua vez, tem ambos os pais acolhedores e receptivos. Juntas, as duas formam um casal que se mantém firme mesmo diante da homofobia e do julgamento externo.
“Três Graças” ainda se distinguiu de outras telenovelas ao apresentar um final feliz para todos os seus personagens QUEER. Os casais Viviane e Leo e Lorena e Juquinha se casam em uma cerimônia em conjunto, durante uma cena que celebra a diversidade e reforça que o amor deve estar sempre acima de qualquer preconceito.
Mesmo que, na reta final, os personagens tenham sido parcialmente ofuscados, a produção da Globo teve grande êxito na representação da comunidade queer na TV aberta. Ao apresentar figuras complexas, que se distanciam de estereótipos limitantes e encontram acolhimento e uma perspectiva de futuro, a novela reforça a função da mídia de incluir e humanizar as minorias.





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