top of page

Páginas de um livro aberto

Foto do escritor: Neomarsha UFC
Neomarsha UFC
15 de jul. de 2023
3 min de leitura

Atualizado: 18 de ago. de 2025

Por Ana Massonila



Ao abrir o mapa online da cidade de Fortaleza(CE), não é possível imaginar que os pontos cardeais que marcam a Rua Babaçu, no bairro Jangurussu, abrigam uma casa de portão de correr e jardim inacabado, com uma generosa quantidade de cachorros e sua boa parcela de gatos. Nela, moram uma mãe e sua filha: Diana Berreto. 

 

Diana é lutadora de kickboxing, campeã também. Amante de cristais, teatro e astrologia. Veterinária em aprendizado. Fã da cantora norte-americana Lana Del Rey e da série Euphoria (2019). Atriz e drag queen. Mulher trans. Um livro aberto, segundo sua própria definição.


Organizar a vida de Diana Berreto em capítulos cronologicamente lineares é uma tarefa complicada. Há muitas tramas dentro de uma história só. Há uma Demetria, uma “Perséfone no País dos Vagalumes”, uma Diana cantora da Jovem Guarda brasileira, uma Diana deusa da lua e outra Diana como a Mulher-Maravilha dentro da Diana Berreto. 

 

Um dos capítulos do livro de Diana acontece quando, aos 13 anos, ela se assume gay para a mãe. Naquela época, as distinções entre orientação sexual e identidade de gênero ainda não estavam claras em sua mente jovem, por isso demorou um tempo para que Diana se entendesse não como gay, mas como mulher. Assim como também demorou um tempo para que deixasse de ser Demetria, o primeiro nome que escolheu para si, e passasse a ser simplesmente Diana. Seus amigos, familiares e familiares dos seus amigos concordaram veementemente com a mudança.

 

Diana, crescida na periferia de Fortaleza, não teve muitas referências de mulheres trans e travestis ao seu redor. Na verdade, as histórias de jovens travestis falecidas precocemente pela violência urbana cruzaram a sua desde cedo, fazendo-a temer expressar a sua identidade com totalidade.  O capítulo da sua expressão identitária teve início quando, algumas ruas além da sua casa, no Cuca Jangurussu, Diana encontrou a arte.


Como atriz, Diana foi Perséfone de “Perséfone no País dos Vagalumes”, uma recontagem LGBTQIAPN+ de “Alice no País das Maravilhas”, pela Companhia Breu dos Vagalumes. Também atuou no curta-metragem “Matrizes” e no Projeto Cúpula, em 2019. Ela foi drag queen e participou de batalhas de lip syncing em um evento organizado com outras colegas drags, o “Saba K.O”. Nele, Diana se montou para performar e encarnar diferentes divas pop, como Rihanna e Beyoncé, em cima do palco que tanto adorava.

 

Com o teatro, Diana aprendeu a agarrar oportunidades e crescer junto a elas. Sonhou em ser uma estrela, mas não demorou para perceber as páginas desse capítulo se esgotando. Afinal, sonho e realidade são dois mundos diferentes e, às vezes, alguns sonhos não passam daqueles livros que esquecemos em prateleiras ou no fundo do guarda-roupa.

 

Ela deixou o teatro, mas não deixou a Rede Cuca. Foi uma fase difícil, afirma, mas o esporte a encontrou e a salvou. Era o início de um novo capítulo e de uma nova Diana.

 

Uma Diana que se tornou campeã do segundo Campeonato Cearense de Kickboxing com apenas quatro meses intensivos de treinamento, dentro da modalidade kickboxing. Uma Diana que conquistou a medalha de prata no Campeonato Panamericano de Kickboxing de 2022. Uma que com o teatro aprendeu a se expressar e com o esporte aprendeu a lutar por quem é e a se orgulhar das suas conquistas. 

 

No atual capítulo de sua vida, Diana, que cresceu apegada à mãe, sonha em deixar o seu quarto cheio de livros, medalhas e cristais para aprender a ser livre. Essa ainda é uma história em construção. 

 

E Diana Berreto ainda tem muitas páginas do seu livro aberto para continuar escrevendo novas histórias.

Comentários


  • Ícone do Instagram Branco
  • Ícone do Youtube Branco
  • Spotify
  • TikTok

NeoMarsha © 2026.

bottom of page