“Por que não me chama de Cidinha? Está com raiva?”
Atualizado: 18 de ago. de 2025
Uma conversa para se chamar pelo nome
Por André Buccarini
Marquei com a professora Maria Aparecida de encontrá-la às 14 horas de uma terça-feira. Ligo, e ela pede que eu chegue às 15h. Chego às 15h20 e espero que ela termine de se vestir para abrir o portão. De cara, sou recebido pela varanda com grandes olhos e orelhas baixas. Conheço Nina.
Após o leve atraso, escuto uma voz que não se pode confundir. Sou recebido como quem recebe monarca. A professora está cheirosa, e me pergunta como está o seu batom. Ela só usa batom. “Entra”, ela diz. A casa é grande, clara e arejada. Há um sino de vento, acho que é esse o nome. Uma casa de uma pessoa organizada. Será que arrumou para me receber?
Depois de um rápido tour pela casa, livros e afins, vamos à parte de cima, onde passaríamos nosso dia. Nina sobe em mim, deixando a professora, que a repreende, envergonhada pela ação da filha. Suponho que fiz uma amiga, a qual iria me seguir e me presentear com muitos “lambeijos” — como diria a professora — a tarde inteira.
Faceira. Com sorrisos de canto e uma voz aveludada. Boa em algumas coisas, um pouco melhor em outras, mas, outras coisas também… “O que você quer saber?” (tudo.)
Desde criança adorava a solidão. Subia em árvores e ficava lá cantando, enquanto todos a procuravam. Ama a solitude, a arte de ser só. Fica em sua casa cantando, tocando seu piano, o qual tive a sorte de ouvir algumas notas, dedilha o seu ukulele… Enquanto todos a procuram.
Nascida e criada na capital cearense, Aparecida fez de Fortaleza sua casa, ou melhor, fizeram-na sua casa. A solitude que amava na infância — e se estende pela vida adulta — não ocupava tanto espaço assim nos laços que fez. O que o seu pai fazia não me liguei muito, nem lembro o que ela me disse, nem importa também. Mas a saudade dele que surge quando ouve “Copacabana” é grande, disso me lembro bem. Saudade é quando se sente que uma parte sua não está mais aqui, o que pode ser um luto. A professora perdeu a irmã precocemente e o pai, mas se lembra deles com uma doce memória, gostosa de se sentir; no fim, eles nunca foram.
Assim que cheguei, apresentou-me suas memórias em forma de fotos. O pequeno retrato de seu pai, em um formato oval, me lembrou o sorriso da professora. Sua casa é cheia de significados, simbolicamente desenhados, todos eles pela casa — nos detalhes.
Retratos em mesa na sala de estar; foto do Pai no lado direito / André Buccarini
Como de frente para um espelho, Aparecida se vê em seu pai. Seu gosto pela música, sua paixão por instrumentos, seus xingamentos aos políticos…
Fortaleza, depois Rio de Janeiro. “Uma mulher da capital?”. “Sim. Mas de todos os lugares, também”. Difícil é contar uma história, sabendo que tudo se movimenta; a professora, as suas relações, os seus alunos… Como diria Foucault, um dos amores de Maria Aparecida, a polifonia nos forma, as vozes de todos que passaram por nós e de todos os que fomos também. “Definir-se não é limitar-se, como diria Marc Bloch?”. Por isso, falo de mim, do espaço e dela. Seja Maria Aparecida, Aparecida, Cida, Cidinha, Professora, Filha, Irmã… Todas verdadeiras, todas sinceras. A professora é muito mais que a professora, ela é a casa, os alunos, os seus animais.
Às vezes, estamos tão envoltos em sistemas que nem conseguimos nos libertar. Aos 60 anos, ela assinou sua alforria. “Tô nem aí! Não preciso mais ficar agradando, ficar tentando… Mas sou delicada”. “Envelhecer é uma merda e é maravilhoso. É uma merda porque você vai virando uma ameixa seca. É maravilhoso, porque ameixa ajuda você a cagar pro mundo”, uma risada surge no ar quando essa frase de Rita Lee é proferida.
Como em uma sala de aula, Cida poderia ensinar para cada uma de suas versões o que aprendeu. Libertá-las dos estigmas e medos que a inexperiência traz. O de não ser aceita, a necessidade de legitimação, a vontade de reproduzir um padrão seja ele qual for. Hoje ela tem essa liberdade.
“Se alguém for se machucar, que não seja eu”. Esse tipo de coisa só é dita por alguém que precisou ser forte por muito tempo. Aparecida teve um câncer de mama, perdeu bichinhos, Francisco — sobre quem não podemos falar — , Bob, Felipe, Príncipe, Ighy … mas uma das coisas que mais doeu foi perceber que ser quem era machucava algumas pessoas que a amavam. Como em uma fila de uma caixa da vida, Cidinha sempre dava preferência aos outros, sem distinção. Hoje ela está passando as compras da sua existência, é a sua vez.
Cida ama muito. Seus bichos, Nina, Vitório, Teresa, Baby e Foucault. Tem um jardim, onde ela planta muito mais do que flores; planta relações e as colhe como bençãos. Algumas estão aqui, como sua mãe, que evoluíram juntas, seus irmãos e sua família, outras também estão, apenas de forma diferente, seu pai e irmã e algumas outras ainda são sementes e não se sabe o que está por vir.
Era final de terça-feira. Maria Aparecida não ligou para ninguém e ninguém ligou para ela. Estava em seu escritório e teve um súbito de si mesma.
Deu uma risada e ficou feliz por ser ela. Por ser quem se guardou lá fora e aqui dentro, quem investiu nos sentimentos, que ama aos outros e a si e é feliz com sua companhia, tanto que nem recebe tantas visitas. É importante e coisa quase nenhuma. Em sua casa, com seus bichinhos, ainda há quem diga que está só, mas está sozinha, presentemente, é um luxo. E essa elegância se chama Cidinha.



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