top of page

Vozes que transformam

Foto do escritor: Neomarsha UFC
Neomarsha UFC
há 2 dias
4 min de leitura
Produção de podcasts por pessoas trans gera proximidade com a audiência, versatilidade do formato permite diversos tipos de conteúdo.
Foto reprodução: Entrevistadas Aline Hack, Ariel Machado, Jazz Rider - Acervo digital
Foto reprodução: Entrevistadas Aline Hack, Ariel Machado, Jazz Rider - Acervo digital

Por Cassiano Abreu


Selecionar um episódio, pôr os fones, tocar. Ouvir podcasts faz parte da rotina de muitos brasileiros, impulsionado pela versatilidade do formato, que evolui a cada ano. Há desde programas independentes até produções com grande investimento. Embora seja um formato que possibilita mais liberdade criativa para quem produz, ele seria um espaço efetivo de promoção da diversidade? Para algumas pessoas transgênero, essa mídia é um instrumento que leva adiante suas mensagens e amplifica suas vozes. Porém, qual é o tamanho da presença desse grupo dentro da “podosfera”, como é chamada a comunidade de produção e consumo de podcasts?


Existe uma dificuldade em tentar mensurar a participação dessa comunidade na criação de conteúdo. Os dados são essenciais para essa análise, mas ainda são escassos. No Brasil, um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2021 apontou que cerca de quatro milhões de pessoas (ou 1,9% da população) se identificam como transgênero ou não binárias. A pesquisa contou com 6 mil entrevistas em 139 municípios de todas as regiões do país. Mesmo com foco em questões de saúde, o resultado permite entender a dimensão do grupo no território nacional. Em contrapartida, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ainda não tem um recorte preciso de identidades de gênero no censo demográfico nacional.


Uma das principais plataformas de consumo de áudio no mercado brasileiro, com cerca de 67% da preferência de uso segundo uma pesquisa da Acast sobre o comportamento dos ouvintes no cenário nacional, o Spotify é um dos únicos players que permite a distinção estatística, com a opção “não binário” sendo uma das alternativas durante o cadastro no serviço. Procurada para falar sobre o mercado nacional de podcasts e a produção por pessoas trans, a plataforma não retornou o contato até o fechamento desta reportagem. Apesar da dificuldade em quantificar a presença da comunidade trans na podosfera, criadores de conteúdo em diversos nichos produzem material para educar, entreter, informar e engajar o público.


Jazz Rider, como se apresenta nas redes a produtora Mariana Mafra (mulher trans), é cofundadora da Parasol Storytelling, empresa que produz podcasts e outros formatos sonoros para o mercado. Ela é apresentadora dos programas Jujubacast e Tem culpa eu?, seu lançamento mais recente, além de produtora do projeto Discoteca Básica, apresentado pelo jornalista Ricardo Alexandre.


Para ela, que atua há mais de dez anos na área, ocupar a mídia não significa, necessariamente, restringir o conteúdo à própria identidade, mas prezar pela expressão artística e pela qualidade do que se faz. "A primeira coisa é dizer que o fato de você fazer parte da sigla não significa que o seu conteúdo tem que ser sobre isso e nem se resumir a isso, a não ser que você queira", comenta. Ela aponta a potência do formato para gerar conexões genuínas entre quem faz e quem ouve. “Eu considero o podcast em áudio como o meio de comunicação mais efetivo para gerar proximidade, criar comunidades e contar histórias de forma mais profunda. E sim, essas características são muito benéficas para promover a igualdade das pessoas LGBTQIAPN+”, afirma Jazz.


Essa ideia é compartilhada por Aline Hack (mulher cis), advogada, jornalista e mestre em direitos humanos. Criadora do podcast Olhares e organizadora do livro Feminismos e Podcasts, ela argumenta que a mídia aproxima o ouvinte da mensagem do criador, principalmente por meio das vozes. “A conexão com o podcast chega a ser uma conexão física, né? Você tá no fone de ouvido, dentro da orelha de uma pessoa”, defende a pesquisadora. Aline também comenta que as vozes são representativas: se uma pessoa, atravessada por preconceitos, ouve e subentende uma voz como pertencente à comunidade LGBTQIAPN+ em geral, pode sentir repulsa; contudo, alguém dentro desse grupo pode se identificar e se conectar profundamente com quem fala.


A trajetória do produtor Ariel Machado ecoa as relações de intimidade descritas por Aline. Professor de artes e criador do programa Descriarte, ele identifica-se como pessoa não binária transmasculina e usa a mídia que, segundo ele, une as pessoas de um jeito diferente de outros formatos. Ariel percebe o podcast como um instrumento para marcar histórias e validá-las. "Eu fiz conexões com pessoas e é meio que essa coisa humana, sabe, de querer deixar a sua marca no mundo, de pensar: 'pô, os nossos antepassados na pré-história marcaram suas mãos para dizer: eu estive aqui'", relata.


Ele complementa falando do impacto emocional das trocas proporcionadas pelo áudio: "Pelo menos você tá aqui sendo escutado e vendo suas dores serem validadas", ressalta.

Ariel finaliza afirmando o papel do podcast como uma ferramenta útil na defesa dos direitos humanos, destacando a importância de registros feitos por meio do áudio e a possibilidade de preservar memórias de maneira acessível.


Indagado sobre o uso dos podcasts para proteger comunidades e suas culturas, ele conclui: "Eu acho que sim, especialmente se mais gente se dispuser a produzir conteúdo sobre sua realidade, a contar a história das pessoas e das suas comunidades".


Comentários


  • Ícone do Instagram Branco
  • Ícone do Youtube Branco
  • Spotify
  • TikTok

NeoMarsha © 2026.

bottom of page