Cor-de-rosa; O mundo artístico de Melzier
Melzier constrói sua trajetória entre a palhaçaria, as artes visuais e a ocupação das ruas de Fortaleza

Por Fernanda Duarte
Entra na sala com um grande sorriso no rosto. Enfeitada com acessórios marcantes: bracelete, touca de crochê, um colar com um dente, brincos coloridos, uma florzinha nos cabelos e um segundo colar com uma porção de objetos usados como miçanga (entre eles, a cabeça de uma boneca). Exala o cheiro cor-de-rosa: aquele cheirinho de batom, perfume e maquiagem rosados.
Melzier, vulgo de Melissa Moraes Prates, pode ser vista em diferentes cantos de Fortaleza. Num adesivo grudado no ônibus, no grafite “lésbicas estão em todos os lugares”, nos corredores do prédio de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC) ou numa apresentação circense. Não se limita a só um ofício: é artista visual e urbana, palhaça, comunicadora e empresária.
Num certo dia, assistiu a um filme chamado “Nunca Fui Santa”. A protagonista era uma líder de torcida que não gostava de beijar o namorado, admirava muitas mulheres e era vegetariana. Era lésbica. Melissa viu aquilo e pensou “será que essa sou eu?”.
Na arte, se escondia sob o pseudônimo “Melzier”. Quando teve o choque da lesbianidade, se assumiu como pessoa e como artista. Melissa era Melzier e Melzier era Melissa.
Cursou Design, se descobriu lésbica, virou palhaça, raspou o cabelo, se pintou toda de rosa. Na palhaçaria, é conhecida como “a palhaça sapatão”. Brinca, se diverte, cria e performa na arte de fazer rir.
Não se lembra muito da própria infância. O que lembra é contado pela irmã, Danos. As duas se fortalecem na memória, na resistência e na arte. São “as irmãs que pintam”. Estão muito juntas, na vida e na arte, em uma parceria que chama a atenção de qualquer um.
Se você andar pela cidade, provavelmente vai encontrar um canto com os dizeres “lésbicas estão em todos os lugares”. Ou mesmo suas variações: não bináries, bissexuais, gays estão em todos os lugares. É o rastro da artista. O que marca por onde Melzier passa. O que é produzido e reproduzido para ocupar espaços e demarcar que a comunidade LGBQIAPN+ está presente em tudo quanto é canto. É uma forma de identificação para o público diverso: desde a garotinha que está se descobrindo à senhorinha que se orgulha da sexualidade. E, se incomodar, que incomode.
Melzier ainda está se descobrindo, se encantando e crescendo. Ainda tem muito lugar pra ocupar. Pra se fazer presente. Em todos os lugares.


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