Travestintelectualidade
Atualizado: 4 de nov. de 2025
A infância e a prata: a Dediane Souza de dona Lindalva
Por Kaio Pimentel
Em recordação, as colegas não queriam simular um redemoinho no curso fluvial. Procuravam nem triscar. A presença dela não era bem quista pelos demais. Toda a pompa, feminilidade e “fechação” foram motivo de assombro em Santana. Mal sabiam que o morcego não habitava nela. Mesmo assim, a roda do rio fora mais preenchida do que vazia.
Deidiane vira para o outro lado do açude. Lá, ela vê uma adolescente de 16 anos de idade exercendo a militância. A líder procurava muvuca, mas encontrou a família. A irmandade foi comprimida a ponto de ser bem mais que colegas de luta. O laço sanguíneo construído era em um café da manhã, com política e afeto.
O córrego do rio a leva a refletir em terceira pessoa. A vivacidade mesmo em tranco e barrancos nunca permitiria ter existido, mesmo que em um período de tempo, em uma existência a pó. “Eu não tenho um nome morto. Não nasci quando me afirmei travesti. Nasci no dia 7 de julho de 1988”, legitima.
Além disso, o curso d'água que ela pisa é totalmente cearense. Portanto, nele não cabe neologismos nem ideias ocidentalizadas na figura de uma madrinha. Só há espaço para uma mamãe, mas irmãs podem nadar.
A correnteza reivindicada encontra-se na Universidade Federal do Ceará (UFC). É território. É bússola. “O ativismo está entranhado na minha pele, na minha epiderme, faz parte de mim. [...] O modelo de fazer ativismo não é um modelo acabado, ele é um modelo em disputa”, traça.
Em vez de fazer como o Narciso e apenas admirar a beleza, faz perguntas para o globo. Indaga ao espelho d'água: qual o lugar da travesti no Brasil? A comunidade LGBTQIAPN+ é importante, mas o foco é no ser com a travestilidade.
“Eu não tenho direito de deixar de militar”. Em osmose, vida pessoal e profissional cruzam-se. O texto acadêmico produzido pelas mãos de Dediane é feito por um corpo travesti preto vindo da extrema pobreza. Tanto que só começou a possuir livros na graduação, quando adquiriu uma casa.
O título de primeira travesti escritora pela editora da UFC não a agrada, mas entende que é necessário demarcar o lugar. A ida ao doutorado é importante para construir estratégias por outras ambientações, em nome da potencialidade em oposição à dor. A fé por tempos travestis. A ambição a faz caminhar sobre a água.
Ao ser questionada por quem vê o banho se ainda cultiva sonhos, confirma na lata com um típico “oxe” nordestino. O primeiro plano é comunitário de que as travestis tenham acesso a cidadania plena. Uma utopia, confessa.
Também almeja que nos espaços institucionais possa enxergar professoras semelhantes. “Eu quero rodar um pouco, sair desse cenário local e bater perna pelo mundo”, acrescenta.
Acompanhada disso, planeja atuar, mas sem querer ser Deusa. A canceriana pode ser a primeira doutora da família paterna e materna. Isso já é alcançar o divino sem precisar subir ao Céu.
Por agora, concentra-se em produzir a tese, como uma arma de combate revolucionária à mesa tão poderosa como um grito de manifestação. O capital intelectual é o ganha pão e o instrumento para a luta.
Da infância sem energia elétrica e água encanada, ela termina o banho de rio, já completamente permeada de pratas.



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