Drag e a arte de fazer rir
Atualizado: 18 de ago. de 2025
Por Grasieler Martins
Carregado com uma personalidade gaiata e caricata, Denis Lacerda se destaca entre a fumaça e o reflexo do globo espelhado no palco da Valentina Club, epicentro da cena drag no centro de Fortaleza. É nesse espaço, aonde parte de seus espetáculos acontecem, que ele aceita dialogar sobre as diferentes facetas que o compõem. Indo desde a transição da igreja para os palcos e TV's do Brasil até sua transformação em uma glamourosa drag queen, Deydianne Piaf.
Nascido e criado no Conjunto Ceará, suas raízes artísticas remontam à criança viada que um dia foi, encontrando inspiração em figuras como Xuxa, Carla Perez e Madonna. Era na sala de casa que, religiosamente, performava Lua de Cristal. Ser essa criança viada era natural – e não que haja muita diferença para quem seja o Denis de hoje, a espontaneidade de ser permanece.
Na chegada das festas juninas, ele aproveitava o trabalho da avó de costurar as vestimentas para o São João da paróquia para se expressar. Pegava uma saia de chita e uma toalha fingindo que eram seus longos cabelos, e com a ponta da saia entre os dedos rodopiava como as noivas. Era Deydianne querendo sair.
Apesar de fazer parte de uma família tradicional católica, Denis foi acolhido antes mesmo de se entender e aceitar. Na paróquia, participava do grupo de teatro, encontrando um pequeno espaço onde sua bicha artística pôde desabrochar. “Tinha que andar durinha com as outras bichas da paróquia” para não ter de abandoná-la. Lá, era o seu momento de fazer acontecer o sonho da atuação, um respiro encontrado ao decorar textos desde que soube que queria ser ator.
Foi vivendo nesses dois mundos contrastantes que Denis se moldou. A cidade fervia à noite em shows e boates, enquanto a paróquia o chamava pela manhã. Ele saía com o pensamento de voltar vivo apenas para não machucar a mãe, e ao retornar, mesmo exalando a álcool, deitava-se sobre o peito dela, buscando o conforto que só seu cheiro podia oferecer. Era uma espécie de ritual e de promessa que cumpria ao chegar da rua.
Assim como Britney Spears, cuja carreira começou na igreja, sua caminhada ao mundo artístico também se iniciou na religião, mas não se limitou à paróquia, evoluindo até o Shalom, agora na arte da dança. O que não durou muito; seu desconforto com as diferentes classes sociais e os privilégios que alguns carregavam foi determinante. “Fui-me embora e nunca mais voltei. Melhor coisa que fiz na vida ", relembra.
Apesar disso, mantém o catolicismo como sua crença, ainda que com um pé no terreiro, o qual se identifica como um filho afetivo.
"Umbora se apresentar em cabaré", foi o convite que Denis recebeu em 2006, ao montar-se pela primeira vez. Usando um salto emprestado, peruca e maquiagem amadora, ele subiu ao palco. O convite surgiu após uma brincadeira com a plateia do Cabaré da Dama: um concurso de dublagem. Denis participou dublando "A Roda", de Sarajane, e conquistou o público. Como prêmio, ganhou um DVD da Cher e um engradado de cerveja.
Fez cursos de maquiagem, investiu em figurinos e aulas para melhorar a sua performance. Sempre bateu o pé para mostrar a Deydianne bonita. “Não preciso ser feia para ser engraçada”, diz com convicção. Ser caricata não a impede de ser glamourosa.
Daí, engatou junto e como Deydianne em vários espetáculos. No teatro, participou de peças como “Cabaré das Travestidas”, “Engenharia Erótica”, “Quem tem medo de travesti”, “Tita e Nic”, “As Vizinhas”, “Cacos de Família” e “Prometemos não chorar”. No cinema, atuou em filmes como Denis em “Cine Holliúdy”, “Shaolin do Sertão”, “Guiana Francesa” e “Bate Coração”. A grande maioria são produções cearenses. “Mas acima de cearense, sou nacional”, afirma se referindo ao desejo de não se limitar às produções do seu estado, mas produzir e atuar livremente pelo Brasil também. Quando perguntado sobre uma carreira internacional, ele diz querer viver da arte local. “Se eles me quiserem, eles que me levem com tudo pago”.
Amados pelas crianças e idosos — principalmente senhoras, chegou até a ganhar o Prêmio Multishow de Humor, como o melhor humorista do Brasil, em 2014.
Denis e Deydianne trabalham em conjunto desde então. Inseparáveis, se complementam mesmo se desentendendo às vezes. “Sou uma maricona cacura e ela é uma grande força e energia. Não somos a mesma pessoa ao contrário do que dizem”, pontua. É por meio de Deydianne que Denis encontra coragem para falar sobre pautas políticas envolvendo a comunidade LGBTQIAPN+. Não se enganem, seu caricatismo é um ato político.
Seu primeiro espetáculo solo surge no final de 2023, duas décadas desde o começo da carreira como artista. INTACTA mostra quem está por trás de Deydianne Piaf. É Denis de cara limpa e sorriso no rosto. A prata da nave da Xuxa, o livro de Britney Spears como bíblia, os detalhes rosas, todos esses elementos são fragmentos de sua identidade. INTACTA os reúne para contar sua origem como uma bicha nordestina da forma mais ele possível: com dublagens e muito humor. Quando perguntado sobre o que espera da apresentação, ele responde de forma sincera: “Que o público ria!”. Tirando pela entrevista feita entre sorrisos, fazer rir é uma tarefa fácil, seja como Denis Lacerda ou como Deydianne Piaf.



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