Não tô com a terapia em dia
Atualizado: 18 de ago. de 2025
Por Odara Creston
Pirambu, Benfica, Messejana, Fortaleza. A história de uma pessoa ressentida, agora não mais tanto, com a cidade na qual nasceu. Em uma tarde de sábado na Biblioteca Estadual do Ceará, um lugar nostálgico, Robson Braga concedeu uma entrevista - mais uma conversa - pela primeira vez sobre ele mesmo. Ele assume o nervosismo de estar nessa posição.
Nascido e criado no Pirambu, o jornalista, professor da Universidade Federal do Ceará e coordenador do curso de Jornalismo, por muito tempo foi rotulado como mimado pelos amigos, embora ele não se enxergasse dessa forma. À medida que se descobria, Robson preferiu se identificar como "protegido", principalmente pela sua mãe.
Aos dois anos teve quase todo seu corpo queimado devido a um incidente envolvendo leite fervente. Chegou a passar dois meses completamente enfaixado, sofrendo com fortes dores e teve um cuidado muito atencioso, principalmente de sua mãe, Dona Ivonilde, que prometeu abanar seu filho todos os dias e todas as horas para que nada tocasse em sua pele, mas não precisasse sofrer as dores insuportáveis de utilizar a faixa para proteção.
Aos quatro anos, Robson sofreu outro acidente, dessa vez enquanto brincava com seu irmão e primos. Nessa ocasião, ele feriu a língua, precisando levar entre 10 a 15 pontos, justo na idade que se está aprendendo a fazer o som do R, em que o movimento necessário é a língua encostar no céu da boca, fazendo com que ele não conseguisse fazer esse movimento até os 20 anos, quando procurou um fonoaudiólogo.
Robson também se autoprotegia, protegia sua sexualidade. Tanto que demorou para falar sobre, na faculdade, foi só pela metade do curso em que ele se assumiu para seus amigos próximos. Na tentativa de camuflar quem ele era, preferia se colocar em uma “caixinha de estudioso”, para que de alguma forma amenizasse o desapontamento dos seus familiares.
“Eu ia falar quando ela me perguntasse”, Robson não negou quem era, apenas esperou lhe perguntarem. Ao se assumir um homem gay para sua mãe, ela lhe pediu para que não contasse por enquanto ao seu pai e irmão por medo da reação de ambos, irônico, uma vez em que eles tiveram uma reação bastante positiva em comparação a mãe, confortado por beijos e carinhos, mais uma vez Robson se viu em um ambiente de proteção.
Robson admite ter hesitado inicialmente em participar do "Conheça-me". Isso se deve ao fato de ele reconhecer uma série de privilégios em sua vida: é homem, branco, professor universitário, casado com um engenheiro e cresceu em um lar com um forte suporte emocional, onde nunca sofreu homofobia. Diante disso, Robson inicialmente não se via como uma voz essencial para a entrevista, afirmando que "os homens gays na sigla (LGBTQIAPN+) têm que ficar bem caladinhos diante de tanta merda que está acontecendo com as diversas identidades que compõem essa sigla. No entanto, ele logo percebeu que o "Conheça-me" abrange muito mais do que isso. É sobre o ser humano e todas suas profundidades e questões.
Sempre amou ter seu momento sozinho. Pode ter pegado isso para si ao observar seu pai, Seu Braguinha, que também sempre gostou de um momento a sós e uma bela vista para contemplar.
Robson não encara o desejo de um tempo para si como algo triste; ao contrário, ele o considera sua fonte de gratificação diária. Seja contemplando a vista de seu apartamento, onde reside com Rubens, seu companheiro, ou fazendo suas caminhadas solitárias ao cair da tarde, frequentando um bar sozinho, ou apenas desfrutando de um momento consigo mesmo em um ambiente tranquilo. Desde jovem, embora se reconheça como alguém impaciente e sempre apressado, Robson cultiva o hábito de, entre 16h30 e 17h, pausar e apreciar, com serenidade e solidão, a vista de seu apartamento. No entanto, devido à estranheza que os outros manifestaram quanto ao seu conforto com a solidão, ele deixou de partilhar essa experiência com as pessoas.
Ao mesmo tempo que aprecia seu momento particular, a falta do outro é presente. Por um tempo, Robson assume que precisava estar com alguém amorosamente para não sentir essa falta, sair a noite e não ficar com alguém era como se não tivesse valido a pena. Com o passar dos anos, Robson não vê mais a falta desta maneira, percebe que é muito triste e até perigoso sentir essa necessidade de ter outra pessoa e não a si primeiro. Era mais uma maneira de se provar aos outros, à sociedade do que a si próprio.
O sentir-se estranho que muitos jovens queers sentem, foi um pouco diferente para Robson. Não veio no quesito sexualidade, mas sim, num fator estético e principalmente na diferença social enfrentada com seus colegas no período do ensino médio. Desse sentimento de estranheza, surgiu o ressentimento com Fortaleza, por se sentir deslocado, não pertencente àquele lugar.
Mas isso foi se ressignificando; hoje, tem uma cachorrinha - quase uma filha - com o nome de um bairro de Fortaleza, Messejana. Essa ressignificação também veio em forma de pesquisa e musicalidade, por meio do seu projeto de pesquisa do doutorado. Ao utilizar o forró como objeto de pesquisa, teve uma aproximação com a cidade na qual nasceu e foi criado.
Tanto em sua tese de doutorado como na entrevista, Robson enfatizava a necessidade de se provar, o ato de desabafar sobre os fantasmas de sua vida, o papel dos relacionamentos e das pessoas, a percepção de seu ressentimento e a busca por aproximação com a cidade e com o Forró. Ao analisar essas ideias e sentimentos por meio de uma pseudo psicanálise, surge a tentativa de estabelecer uma conexão direta com sua mãe, aquela que desde que ele tinha dois anos proferia um discurso heróico, prometendo proporcionar-lhe o melhor possível e sempre protegê-lo de qualquer mal, um compromisso que persiste até os dias de hoje.
Robson Braga, em uma tarde na Biblioteca Estadual do Ceará, conversou por uma hora e meia com seus estudantes, se permitiu ser vulnerável sem precisar provar nada para ninguém.



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