Quem influencia, tem interferência em quê?
Encarar o silêncio de um influenciador em temas políticos como uma forma de blindagem é tão míope quanto acreditar que o entretenimento está imune à realidade de quem o consome.

Por João Alves
A internet vem ampliando o alcance das ideias de inúmeras pessoas. Com isso, apresenta-se um cenário onde elas têm uma responsabilidade com aquilo que é dito nas redes sociais. Responsabilidade essa que muitas vezes é ignorada. Kylie Gui, influenciador que viralizou nas redes sociais com seus bordões de humor, teve seu nome no centro de um intenso debate. Em uma transmissão ao vivo no dia 27 de setembro de 2026, ele criticou tanto o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o candidato Flávio Bolsonaro, declarando que não se importava com nenhum dos dois. Seu nome foi imediatamente alvo de cobranças. A questão levantada por parte de seu público foi direta: como uma figura pública assumidamente gay ignora o peso de um posicionamento eleitoral em um cenário de forte polarização política? Kylie se defendeu afirmando não gostar de política e garantiu ter consciência de em quem não votaria, preferindo manter-se isento. Contudo, com quase meio milhão de seguidores, a isenção de um criador de conteúdo que lucra com uma comunidade historicamente oprimida soa, para muitos, como um privilégio perigoso.
Em um ambiente ainda mais polarizado como o mundo dos jogos, a influência política tenta se camuflar, mas as cobranças inevitavelmente chegam. Um dia após a declaração de Kylie, uma conta no X (antigo Twitter) chamada "Acervo Colegas" publicou uma "colinha" eleitoral para que os fãs não esqueçam dos números na urna. Nela, o campo para presidente não era editável e já vinha preenchido com o número 13, declarando apoio à esquerda. Na mesma noite, a conta revelou que os youtubers do grupo "Colegas" (que jogam frequentemente com o gigante do nicho, Alanzoka) haviam dado permissão para o uso de suas imagens nessa campanha. Todos, menos um. Erick Mariotto, conhecido como MrFall, recusou. Em live no dia 29 de setembro, seu sustento e trabalho, ele foi às lágrimas. Afirmou ter passado o dia receoso e declarou ser isento. O questionamento que permanece é: como ser neutro diante de uma narrativa eleitoral quando boa parte da comunidade que o assiste, engaja e dá visibilidade é LGBTQIAPN+?
Para quem consome o conteúdo dos jogos ou do entretenimento em geral, ter ídolos que se posicionem a favor de seus direitos básicos é o mínimo esperado. Quando figuras públicas como MrFall ou Kylie Gui optam pela neutralidade, trazem em seus bolsos apenas a sua individualidade, esquecendo o peso do coletivo. É uma postura que ignora a história. Desde a Revolta de Stonewall em 1969, passando pelo surgimento do jornal alternativo Lampião da Esquina no Brasil em 1978, até a trágica negligência estatal durante a epidemia de HIV/Aids na década de 1980, corpos LGBTQIAPN+ sempre foram alvos de repressão. Nessa condição, ser uma pessoa Queer é carregar a certeza de que existir é, e sempre será, um ato de resistência e disputa política.
A pesquisadora Lisa Duggan define como "nova homonormatividade" esse fenômeno: a incorporação de valores heteronormativos por pessoas Queer que, protegidas pelo dinheiro e pela fama, vivem em uma bolha de privilégio. Preocupam-se apenas em consumir e faturar, descolando-se da luta por sobrevivência que atinge o resto da comunidade. Temos o livre-arbítrio para darmos fama a quem quisermos, mas não podemos dividir essa adoração com a ignorância. Não é possível fechar os olhos para o fato que, enquanto tiverem milhares de olhares lhes dando pódio, ao menor sinal de fumaça e ameaça real, muitos lavarão as mãos e se recusarão a nadar contra a maré em defesa dos direitos de quem os assiste. Podemos escolher ver e acompanhar quem for, mas, gostando ou não de se politizar, em hipótese alguma poderemos reclamar se o amanhã raiar sem os direitos que nos pertenciam ontem.




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