Camisa número vinte e quatro

Por João Alves
Quarta-feira, o primeiro dia do mês de julho. A nova temporada mal se inicia e o que temos para hoje?
Acordo, tomo banho, me sento à mesa e, na companhia de minha mãe, merendamos — como diz um bom cearense — e damos início ao nosso dia em conjunto. O tempo hoje parece estar mais devagar, mas seguimos em frente. Às 11h, encho minha garrafa, coloco-a na bolsa e tomo meu rumo à universidade. Em final de semestre, o dia vai ser longo e cansativo, e digo isso não apenas pelo ponteiro do relógio que teima em brincar de lesma e correr devagarinho.
Desço do primeiro ônibus e, na espera do segundo, sou surpreendido. Vale ressaltar aqui como eu estava vestido hoje: com a blusa de um time fictício de uma série LGBTQIAPN+ que recentemente viralizou. Rivalidade Ardente. A camisa que eu portava, em meio àquele calor de abanar as mãos em busca de uma leve brisa, era a do time de hóquei em que um dos protagonistas joga. Em tons de azul e vermelho, ela lembra um pouco a blusa do Fortaleza, mas um detalhe chama mais atenção do que a cor — e, digo de passagem, foi por isso que ocorreu a abordagem. O senhor de cabeleira grisalha e voz arrastada cutuca meu ombro e dá início ao nosso breve diálogo:
— Oi, tudo bem, senhor? — digo eu, retirando o fone dos ouvidos para interromper a música e ouvir a melodia de suas palavras.
— Olha, meus parabéns por estar usando essa camisa, viu!
Em silêncio, eu o encaro e espero ele terminar.
— Você sabia que nenhum time brasileiro tem essa numeração na camisa? E você sabe o porquê, né?
Concordo com a cabeça e agradeço aquele elogio que, para quem ouve, soa como: é fã ou hater?
Antes de nós dois subirmos no outro coletivo, que levaria cada um ao seu destino final, rio da situação e logo aviso meu namorado:
— Amor, tu não sabe o que acabou de acontecer.
Pode parecer hilário à primeira vista, mas aquilo logo alugou um triplex na minha cabeça. Um único número, um múltiplo de quatro: o vinte e quatro estampado nas minhas costas e ombros. Um número que, no Brasil, é historicamente relacionado aos homossexuais, e que faz um senhor se espantar com a minha coragem de usá-lo na rua em pleno começo de tarde. O Mês do Orgulho acabou, mas acho que a virada de um mês para o outro não consegue apagar a história que carrego estampada na minha camisa e na minha pele para o resto da minha vida.




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